quinta-feira, 13 de junho de 2013

Quem encontrei no Manifesto Contra o Aumento das Tarifas


Nesta quinta-feira, 13, eu, Kaluan Bernardo,  fui para o 4º Manifesto Contra o Aumento das Tarifas. E essas foram as pessoas que encontrei:


18h30

5 policiais conversando na escada rolante. “Jovem de barba, maconheiro... esses estudantes da USP é que temos que pegar”, disse.

18h45

Galera discutindo o preço do ônibus enquanto andava tranquilamente pelo centro.


Pessoas no restaurante do Copan, comendo tranquilamente e vendo cena na TV em que vários policiais surravam um cara em um posto.

19h00



Jailson. Ele já tinha tomado 5 tiros de borracha. “Joguei pedra de volta e apanhei mais ainda, mas não quero ficar quieto”. Ele chorava pela perda da moto. “Joguei minha moto em cima deles. Eu uso ela todo dia, mas valeu a pena”, continuou.

Um pessoal dentro do apartamento, que xingava as pessoas na rua de vagabundas.


Um senhor com uns 70 anos. Xingava efusivamente os PMs de “filhos da puta” e dizia que “na ditadura não viu nada diferente”.

Um molequinho de uns 8 anos que corria no meio do lixo e estilhaços de bombas.

Um cara que queria jogar uma garrafa nos policiais. “Esperei minha vida inteira por isso”. As três garotas que o impediram. “Todos estão nervosos. Mas não precisa fazer isso”.

19h25
Um monte de gente dividida. Alguns desceram a Frei Caneca, outros subiram a Augusta. Ninguém estava depredando nada e mantinha distância dos policiais. A ideia era tentar reunir a multidão e fazer algo novamente.

As pessoas que subiam a Augusta calmamente, discutindo os protestos ou até falando sobre assuntos aleatórios. Nesse percurso, ouvi cerca de 6 bombas estourando por perto
.
20h00

A sequência de bombas.

A multidão. Parada, na Paulista, perto da Praça do Ciclista. Todos batiam palmas e apenas olhavam para a PM.

A PM. A Cavalaria. O Batalhão de Choque. Todos armados até os dentes, jogaram mais 3 bombas diretamente onde estavam as pessoas, paradas e quietas. Claramente um ato iniciado por eles, sem nenhum motivo mesmo.



A correria.


Um cara que foi jogar pedras nos policiais e as três pessoas que o impediram de fazer isso.

O Coréia, um antigo amigo de escola. “Eu nem estava no protesto. Estava aqui, parado, esperando meu ônibus e apanhei pra caralho. Me deram cacetadas”. Quando a polícia voltou, ele continuou sentado no ponto de ônibus respirando gás lacrimogênio. Não sei o que aconteceu depois.


20h15


As pessoas que andavam e gritavam “SEM, VIOLÊNCIA!”. Os gritos ecoaram pela Paulista inteira e todos foram em direção aos policiais apenas gritando a frase -- sem fazer mais nada.

A PM, a Cavalaria, e o Batalhão de Choque que vinham dos dois lados, espremendo todos com suas bombas, escudos e cavalos.

E todos que ficaram e apanharam, simplesmente por estar “no lugar errado, na hora errada”
.
Os gritos: “FASCISTAS! EI POLICIA, VAI TOMAR NO CU! COVARDES!”.

Os policiais que pararam a Paulista, estouraram bombas e quebraram vidraças de prédios e locais – tanto particulares quanto públicos.

20h30
Pessoas que jogavam os sacos de lixo no chão e os incendiavam para atrasar o avanço da Cavalaria.


21h00

O garçom do bar Violeta, que não queria deixar ninguém entrar. Após muito insistir, ele me deixou usar o banheiro.


As pessoas dentro do bar, com todas as janelas e portas fechadas. Algumas tomavam cerveja como se estivessem em outro mundo e outras discutiam o que acontecia ali do lado de fora.


O pessoal de uma mesa. Me chamaram para sentar com eles e contar o que acontecia. Lá também tinha um baiano, de Salvador, que participou da Manifestação e dizia que, em seus 38 anos, nunca viu tanta violência do governo.

21h15


Um cara que fumava ao meu lado, na calçada de esquina com a Augusta. Foi atropelado por um policial de moto. “Eu te vi lá em cima, filho da puta!” – dizia a “autoridade”, que acelerou pra cima do cara. O garoto não chegou a ser atropelado e não se machucou.

– Agora vocês atropelam civis aleatórios? – perguntei.
– Você também quer ser atropelado, rapaz?, retrucou outro policial.
– Por quê? Tá na Constituição? Eu to te desrespeitando?


O policial, que desceu da moto e veio para cima de mim com o cassetete. “Aproveita que você tá em um dia de sorte e que ainda dá tempo de correr”.

Vi minha versão reprimida por ter que escolher entre correr dessa “autoridade” ou apanhar dele e de seus colegas. Corri.


21h30
Mais um monte de gente na porta de suas casas discutindo. A palavra “ditadura” era a mais comum.

Os policiais ao longo da Paulista. Uma moça perguntou se estava seguro chegar ao metrô. Um dos PMs respondeu: “Se você não estiver protestando por nada, talvez esteja”.


21h45
Encontrei eu mesmo. Fui para a manifestação ver com meus olhos o que estava acontecendo. 

Obviamente não confiava na mídia tradicional, mas estava cheio de receios dos discursos que li e do que “mídias alternativas” diziam.


Acreditava que, no geral, os protestos estavam bagunçados por não encontrar um foco certo. Ainda não vi uma proposta concreta para diminuir o preço dos ônibus. Do jeito que as coisas estavam acontecendo, acredito que: ou teríamos um rombo no orçamento público, ou São Paulo venderia a alma para o governo federal, ou os 20 centavos seriam, discretamente, roubados de nossos bolsos em outros impostos. Enfim...

Fui e vi que a questão agora é maior do que o preço do ônibus. Vi que a polícia bateu em muita gente sem motivo. De graça. Vi mesmo. Era tudo covardia. Bombas em quem estava sentado pedindo por “não-violência”.

É claro que estou falando de uma forma generalizada. Com certeza havia policiais que estavam lá e não concordavam com isso ou não agiam desse jeito. Alguns estavam apenas porque é sua profissão. Mas, como um todo, a cena policial é vergonhosa.

Após ouvir as palavras “Fascista” e “Ditadura” tantas vezes; ver que as pessoas apanharam por esperar um ônibus; e ver que rolou pouca depredação por parte dos manifestantes, (e muita por parte dos policiais), comprei para mim que a luta não é mais pelos 20 centavos. É pelo seu direito de liberdade, de manifestar. Pelo seu direito de ficar na rua, não tomar bomba, borracha e não temer a polícia – aquela que, muito teoricamente, existe para te proteger.


Espero que, se abaixarem os 20 centavos, as pessoas não se contentem e fiquem quietas. Porque o seu direito de se expressar em São Paulo está limitado. E você pode ser preso por “formação de quadrilha” por protestar. O preço do transporte público precisa ser discutido e precisamos encontrar uma solução concreta. Mas, agora está claro que tem muito mais a se defender.

13 comentários:

  1. Li tudo. O q ficou na minha cabeça foi "preciso ajudar a melhorar alguma coisa". Valeu pelo comunicado.

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  2. quanta frescura por causa de míseros 20 centavos... quando o Kassab aumentou de R$ 2,30 para R$ 3,00 num intervalo de um ano, não houve tanta depredação, tanta revolta; 2 anos depois, o aumentam menos que o esperado (no inicio do ano tinham anunciado previsão para aumentar para R$ 3,40.
    ou será que preferiram o aumento para R$ 3,00 em 2011 por facilitar o troco?
    o legal é que para aquele que é trabalhador isso pouco importa, é a empresa que tem de pagar o transporte publico (ele paga 6% do salário para esse benefício) estudante paga meia (10 centavos de aumento apenas)
    divertido são aqueles que depredam onibus para protestar por aumento na frota; é quase como transar em protesto pela manutenção da virgindade

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    1. Você leu realmente tudo? viu os videos?
      Absurdo!!!
      devido a pessoas como você, que "apanham" calados e ainda apoiam o que a "segurança pública" fez, que estamos nessa situação.

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    2. Vincent, não se trata de apenas R$ 0,20. Trata-se de direitos. De ter os teus diretos respeitados para ir contra a algo que você não concorda. Leia novamente o texto. Acho que fará bem a voce

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    3. Cara, o transporte já é uma merda, você acha certo aumentarem ainda mais o valor? e outra, não é só estudante e trabalhador que usa ônibus, e ele não serve apenas pra isso... e como você disse, em um ano aumentou mais R$0,70, agora mais R$0,20... daqui a pouco teremos que pagar R$5,00 em UMA passagem, pra ter esse transporte PORCO que temos hoje.

      Mas pra você deve tá ótimo né, no mínimo não deve depender desse meio de transporte e ficou putinho por causa do trânsito

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    4. Tenho algo a dizer: Nós não temos culpa que a geração anterior não entrou de cabeça nisso, sim, deveria haver protestos desde que o preço da passagem aumentou para 3 reais, mas agora é óbvio, são cabeças novas e com novas ideias e elas estão em busca dos direitos que gerações deixaram se perder no conformismo. A gente saiu do facebook, não era essa a reclamação até dias atrás? Pois é.

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    5. Ignorante não é só 0,20 centavos faz a conta de quantos 0,20 de cada cidadão que esses bandidos lucra

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    6. Divertido mesmo (ou não) é um analfabeto funcional que nem esse Vincent se atrever a escrever alguma coisa... vai aprender a ler rapaz!!! E a pensar também!!!!

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  3. Precisamos rever nossos direitos, é tudo mentira o que disseram pra nós na escola sobre constituição e direitos humanos!

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  4. Putz! Valeu pelo relato Kalu! Realmente, não é mais só pelos 20 centavos, agora e direito da liberdade!

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  5. contra o mensalão,nada???
    ou não existiu??

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